Liberdade é poder escolher: a minha história com a não maternidade
- orumcasa
- 22 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Por Val Cordeiro
Não existe um único caminho para ser mulher — embora, muitas vezes, a sociedade insista em nos fazer acreditar nisso. Ainda hoje, as escolhas que fogem do roteiro esperado são vistas com estranhamento. Uma delas é a decisão de não ter filhos.
Neste texto, compartilho um pouco da minha trajetória com a não maternidade, não como uma bandeira, mas como um convite à reflexão sobre liberdade, autonomia e o direito de cada mulher escrever sua própria história — com ou sem filhos, com ou sem justificativas.
É também um olhar sobre como essa vivência ecoa no meu trabalho como fotógrafa, que tem como propósito justamente acolher e valorizar quem somos para além das expectativas.
A escolha pela não maternidade: ainda um tabu
Apesar dos avanços sociais, mulheres que optam por não ter filhos ainda enfrentam olhares tortos, comentários desnecessários e perguntas invasivas. É como se essa decisão precisasse ser sempre explicada, como se uma mulher que não deseja ser mãe estivesse quebrando uma regra silenciosa da sociedade.
“Mas por quê?” — é o que mais ouvimos. E a pergunta, por mais simples que pareça, carrega uma exigência: uma justificativa que vá além de nós mesmas.
Não desejar é diferente de não poder
Muita gente confunde não querer com não poder. E, muitas vezes, quem escolhe não ser mãe se vê tentando provar que não se trata de uma incapacidade ou de uma fase passageira, mas de uma decisão legítima.
O incômodo não está no fato de não termos filhos, mas no fato de não os desejarmos.
É aí que mora o desconforto social: na quebra da expectativa de que toda mulher, em algum momento, deve desejar ser mãe — e mais ainda, deve colocar esse desejo em prática.
A trajetória até a decisão
Minha história pessoal não começou com a certeza de que eu não queria filhos. Pelo contrário. Na adolescência, eu me imaginava vivendo a vida da família “margarina”. Na fase adulta, esse desejo ainda existia - especialmente pelo contexto de uma relação estável - e senti a pressão do “relógio biológico”.
Eu tentei. E, justamente por isso, posso dizer com tranquilidade: desistir foi libertador.
A liberdade, nesse caso, não veio da ausência de filhos, mas da coragem de dizer “isso não é pra mim” — mesmo que muitos sinais ao redor me dissessem o contrário.
Entre julgamentos e expectativas
Vivemos em uma sociedade que ainda atrela o valor da mulher à maternidade. Somos ensinadas a cuidar, a nutrir, a colocar o outro no centro. E quando escolhemos não seguir esse caminho, a sensação é de estar nadando contra a corrente.
Mais fácil do que bancar a escolha de não ter filhos, muitas vezes, é simplesmente tê-los. É o que se espera. É o que evita perguntas, cobranças, olhares.
Mas até quando vamos deixar que o medo do julgamento decida por nós?
O poder da escolha
Poder decidir é libertador. E não importa qual seja a escolha — ser mãe, não ser, adiar, repensar. O mais importante é que a decisão venha de dentro, com autonomia, consciência e liberdade.
Toda mulher merece o direito de escolher o próprio caminho, sem precisar justificar, agradar ou se explicar.
Porque mais do que seguir um roteiro pronto, viver de forma coerente com quem somos é o que realmente nos liberta.
Quando a fotografia também é escolha e liberdade
Essa mesma liberdade que defendo na vida, levo para o meu trabalho como fotógrafa e artista visual. Escolher não ser mãe é só uma das muitas decisões que a mulher pode tomar sobre o próprio corpo e a própria história — e é justamente isso que me move a fotografar.
Cada ensaio que realizo é um espaço de escuta e acolhimento, onde a mulher pode existir sem precisar performar um ideal. Através da fotografia, celebro aquilo que muitas vezes é silenciado: a autonomia, a vulnerabilidade, a força, o desejo, a contradição.
Fotografar é minha forma de dizer a cada mulher: sua história importa, seu corpo é suficiente, sua liberdade é sagrada.
E quando nos autorizamos a viver de forma coerente com quem somos, sem pedir licença, também nos tornamos imagem — uma imagem que não se curva às expectativas, mas que carrega, com dignidade, a beleza de ser o que se é.

Val Cordeiro
Fotógrafa e Artista Visual
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Post do Insta com o texto original, escrito em 2022:




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